O aspirante a escritor Guilherme Alves de Andrade, pernambucano que atualmente reside em Patos, no Sertão paraibano, está desenvolvendo o livro “Artificial”, uma narrativa de ficção científica ambientada em um universo cyberpunk — gênero marcado por cenários futuristas, avanços tecnológicos e conflitos humanos.
Apaixonado por literatura desde cedo, Guilherme conta que escreve histórias desde os 11 anos de idade. Após anos produzindo textos para consumo próprio, ele agora começa a compartilhar suas narrativas, explorando temas como tecnologia, memória e identidade.
O livro “Artificial” acompanha a história de um cowboy cibernético que parte em uma missão militar enquanto tenta descobrir pistas sobre o próprio passado, já que perdeu suas memórias. A trama se desenvolve em um cenário urbano futurista, marcado por implantes tecnológicos, ambientes underground e questionamentos sobre os limites entre humanidade e máquina.
A seguir, o autor apresenta o prefácio da obra, que introduz o leitor ao universo e ao clima da história.
Artificial
Guilherme Andrade
Prefácio
Ele caminhava pelas ruas da cidade, os edifícios arquitetados com as luzes piscantes oscilavam sua visão tardia e fraca, as vésperas dos festivais acomodavam seus passos no despertar limiar das pessoas que andavam entre os becos.
Estava acostumado com a multidão, só não estava acostumado por andar na área urbana, que o fazia se preencher no diferente tipo de cultura suburbana. Às vezes, gostava de passar pelas pistas e ver os carros adequados, o som dos motores dos veículos fazia-o se sentir em casa, pois morava num ferro velho que muitas vezes recebiam carros sendo guiados por tratores de guindaste.
Queria sair da rotina, entender como funcionava a vida das pessoas dos bairros nobres, chorar no ombro de outra pessoa. Por sorte, ele estava passando por uma viela naquele momento, e viu um bar que sempre permanecia aberto durante a madrugada. Decidiu entrar.
O local estava cheio, a música punk-rock tocava alto, as pessoas diversas vestidas com roupas estravagantes, com braços e pernas mecânicas, olhos com lasers embutidos, o choque de corpo com corpo, sinuando a dança mais quente e ácida.
Ele caminhava pelo bar, os adultos pareciam não reparar em sua presença. Mas era mais doque isso, ele não trombava com as pessoas, e as atravessava, com um glitch que soava um ruído de falha. Parecia estar transparente, a silhueta de seu corpo trespassava os demais, e, a cada passo, ele bugava.
Chegou perto de um grupo que fazia uma roda punk, e um deles parou. Estava com a mão na barriga, tendo refluxos constantes, preparado para vomitar. Seu rosto parou em frente ao dele, e então, num passe rápido, um líquido rosa saiu de sua garganta, atravessando seu peito. Mais um glitch, que sinuava o bug translucido e permissível.
Talvez aquele não fosse o lugar para ele, tinha que sair de lá. Gostava da música, gostava do ambiente, nesses lugares se sentia confortável, pois costumava afogar as mágoas com Linker Dwell, a bebida regional. Mas algo estava estranho, não era como sempre foi, não se comportava como antes. Nunca tinha bugado desse jeito. Não era normal.
Deu um passo para trás, depois se virou, olhando para as pessoas que lá estavam. Seguiu a passos lentos, tentando não esbarrar em ninguém. Mas veio um desconforto repentino, quando viu um garoto seguir caminho a sua frente, passando dentro de si. Era um menino baixo, uma criança, e tinha algo incomum. Um cachorro estava sendo abraçado por ele, a cabeça do animal contra o peito do moleque.
Esse menino também estava seguindo a saída, dava para ver pelos seus passos que estava agitado. Ele o seguiu. De alguma forma, aquela criança parecia familiar.
Quando os dois saíram, viu que o menino colocou o cachorro no chão, que respondeu com um latido animado. O animal deu pulos e rodopiou, fazendo o rapaz se agachar para dar-lhe carinho.
- Hoje não é o nosso dia, amigão-disse a criança, se levantando, esticando-se para criar coragem e seguir o caminho.
Viu-o saindo dos becos sinistro que a cidade trazia diante deles, dando de cara com as luzes dos prédios. Estava seguindo-os agora, curioso para saber mais sobre os dois.
O dia parecia animado para eles, por mais que parecesse que tivessem passado por uns maus bocados, ainda tinham o sorriso estampado no rosto.
Mas a situação começou a ficar mais tensa. O cachorro começou a acelerar o passo, e da lentidão que estavam, o animal correu entre as pistas, passando por um fio de ser atropelado. Agora tinha visto como o menino era rápido, estava lutando contra o fôlego para alcançá-lo, pô-lo em seus braços novamente para que não corresse mais.
E então, num lapso, um carro parou muito rápido, freando. Mas perdeu o controle, fazendo voltas no animal para não o acertar. O efeito dessa ação foi de o veículo bater a roda num hidrante e virar na estrada de cabeça para baixo, o som do pisca alerta começando a vibrar diante a avenida.
- Merda! Merda! - gritava o menino, se aproximando do animal.
Do veículo, saiu um homem velho, com o rosto carrancudo, aparência gorda e desdentada. Estava furioso, dava para ver em seu rosto.
- Cachorro filho da puta! Animal desgraçado! -disse ele, indo em direção ao animal.
O menino estava assustado agora devido a sua próxima visão. O velho tirou de seu cinturão uma pistola cibernética, uma luz neon domava o cano. Sem pensar duas vezes, mirou no cachorro e puxou o gatilho. O som do tiro ecoou por todo o local, acertando-o e dilacerando-o.
Ele apenas assistia a tudo aquilo, parado, mas uma dor surgiu em seu peito. Aquilo era tão familiar...
O moleque correu em direção ao animal, jazendo morto no chão, a cabeça explodia, com uma marca de bala na pista.
- Imbecil! Você matou o meu cachorro! - disse ele, as lágrimas escorrendo pelas bochechas.
- Saia daqui ou eu mato você também-disse o velho, a mão indo em direção ao cinturão novamente. Parece que ele sabia qual seria o próximo passo do menino.
- Quem vai matar alguém sou eu, seu filho da puta escroto!
O menino preparou para atacar, se levantou para pular em cima dele.
No meio do ato, o velho já estava preparado. Do cinturão puxou uma faca de caça, e então, durante o avanço, raspou o rosto do menino com uma lâmina.
Elart acordou, ofegante, a cabeça doendo do pesadelo perturbador. A cicatriz no seu rosto começou a sangrar, o líquido rosa descendo pelo seu rosto.