
Há 26 anos, entrei em uma sala de aula. Cheguei talvez mais extrovertido do que profissional, apaixonado pela comunicação e pelo encontro com os alunos. Com o tempo, percebi que aquilo não seria apenas meu trabalho. A docência se transformaria em uma filosofia de vida.
Venho de uma família de educadores. A família Vieira reúne quase 50 professores, e isso sempre fez da minha escolha também uma enorme responsabilidade. Aprendi cedo que ensinar não é simplesmente transmitir conteúdos: é participar da formação de pessoas.
Costumo dizer que o professor é um obstetra da educação, porque ajuda a cuidar de quem está nascendo como cidadão. Diante de nós existe alguém formando valores, consciência, autonomia e sua própria maneira de compreender o mundo.
Paulo Freire nos ensinou que educação não deve ser simples transferência de conhecimento, mas criação de possibilidades para que ele seja construído. Bourdieu, por sua vez, mostrou que a escola também carrega as desigualdades da sociedade. Talvez exatamente por isso nossa responsabilidade seja tão grande: a educação pode reproduzir diferenças, mas também pode oferecer instrumentos para compreendê-las e enfrentá-las.
Depois de tantos anos, acredito ainda mais que professor não existe para dizer ao estudante o que pensar, mas para ajudá-lo a aprender a pensar.
Foi isso que procurei fazer ensinando Espanhol, História, Sociologia e Filosofia. Mostrar outros povos e culturas, compreender o passado, enxergar as estruturas da sociedade e questionar aquilo que parece óbvio. No fundo, quatro disciplinas dizendo a mesma coisa: o mundo é maior do que aquilo que conseguimos enxergar de imediato.
Nessa caminhada, carrego uma gratidão especial à minha mãe, Dona Laura, grande educadora e uma das raízes daquilo que sou. E à minha esposa, Wilma, grande pedagoga, companheira que permanece ao meu lado nos projetos, sonhos e desafios dessa vida dedicada à educação.
Agradeço também aos milhares de alunos que passaram pelas minhas salas. Porque, se ensinei durante 26 anos, também fui educado por eles. Cada geração me obrigou a aprender novamente, mudar exemplos, rever certezas e continuar jovem intelectualmente.
Por isso não romantizo a educação, mas acredito profundamente nela.
Acredito que conhecimento pode produzir liberdade. Que a História combate o esquecimento. Que a Sociologia revela desigualdades. Que a Filosofia questiona certezas. Que as línguas aproximam culturas. E que uma escola verdadeiramente comprometida com o ser humano ainda é uma das maiores possibilidades de construção de um mundo melhor.
Para mim, ser professor é construir e libertar. É ensinar regras e estimular perguntas. É, de alguma maneira, obedecer revolucionando. É acreditar quando alguém desacredita. É tentar produzir encantamento justamente onde existe desesperança.
Ser professor também é uma forma de amar — um amor que exige responsabilidade e pede em troca algo muito maior do que gratidão pessoal: o bem social.
Hoje não comemoro apenas 26 anos de profissão. Comemoro o fato de, depois de tudo, continuar acreditando.
Ainda quero ensinar. Ainda quero aprender. Ainda quero provocar perguntas, despertar curiosidades, arrancar risadas e participar do nascimento de novos cidadãos.
Por um mundo melhor, continuarei fazendo aquilo que amo, pelo mundo e pelos outros.
Entrei na educação imaginando uma aventura.
A aventura virou caminho.
O caminho virou compromisso.
O compromisso virou amor.
E a aventura virou destino.
Professor Espedito Filho
26 anos de sala de aula
Espanhol • História • Sociologia • Filosofia
