
Em artigo publicado após o empate de Cabo Verde com a Espanha, o professor Espedito Filho defende que o resultado vai muito além do placar. Para o autor, o confronto simboliza a resistência, a identidade e a afirmação histórica de um povo que, ao enfrentar uma das maiores potências do futebol mundial, conquistou visibilidade e reconhecimento internacional. Segundo ele, a partida representou não apenas um feito esportivo, mas um marco de pertencimento e valorização da história cabo-verdiana.
Nem toda vitória cabe no placar
Hoje, Cabo Verde empatou com a Espanha. Para muitos, foi apenas um resultado. Para outros, foi um acontecimento histórico.
De um lado, uma potência do futebol mundial, atual campeã europeia, herdeira de uma tradição centenária. Do outro, uma pequena nação africana, formada por ilhas espalhadas pelo Atlântico, marcada pelas cicatrizes da colonização, pela diáspora, pela luta constante para existir e ser reconhecida.
O futebol tem dessas coisas. Às vezes, por noventa minutos, ele suspende as hierarquias do mundo. O poder simbólico se desloca. Os gigantes já não parecem tão grandes, e os pequenos descobrem que podem caminhar entre eles.
A África conheceu a violência da colonização, o peso do racismo, as guerras civis, a exploração econômica e a tentativa constante de silenciamento de suas vozes. Ainda assim, resistiu. Ainda assim, produziu cultura, arte, identidade e esperança.
Por isso, hoje, o empate de Cabo Verde vale mais do que um ponto. Vale como afirmação de existência.
É como se cada defesa do goleiro Vozinha, cada disputa de bola e cada minuto resistido diante de uma seleção poderosa dissesse ao mundo:
"Eu existo. Meu povo existe. Minha história existe."
Nas redes sociais, o goleiro que antes era acompanhado por poucos passa a ser visto por milhões. Mas o que cresce não é apenas sua popularidade. Cresce a visibilidade de um povo, de uma cultura e de uma história que muitas vezes ficaram à margem dos grandes holofotes.
Alguns vão admirar. Outros vão apenas suportar. E haverá aqueles que terão de engolir.
Porque hoje não foi apenas Cabo Verde que entrou em campo. Entraram em campo séculos de resistência, de memória e de pertencimento.
E quando o árbitro apitou o fim do jogo, o placar mostrava um empate.
Mas a história viu algo diferente.
Hoje, quem respeita a memória dos povos, quem compreende o valor da resistência e quem acredita que o esporte pode ser um instrumento de reconhecimento cultural, sabe que houve algo maior.
Hoje, Cabo Verde não pediu licença para existir.
Hoje, Cabo Verde lembrou ao mundo que sempre existiu.
Professor Espedito Filho