
O Dia dos Pais é uma data que, muitas vezes, acaba sendo associada apenas a presentes, almoços e homenagens rápidas. Mas, como lembra o artigo de Espedito Filho, ser pai vai muito além disso: é missão, compromisso e cuidado que ultrapassam as fronteiras da família e alcançam a sociedade como um todo. O autor nos convida a refletir sobre a importância de uma paternidade que não se limita ao lar, mas que também se estende à comunidade, ao país e ao mundo — defendendo, amparando e educando todos aqueles que precisam. É um chamado para que sejamos “pais da humanidade”, cultivando empatia, solidariedade e ação.
Pais da Casa, Pais do Mundo”
Por Espedito Filho
O Dia dos Pais, que deveria ser um canto profundo de amor e reverência, tornou-se para muitos apenas um reflexo de vitrines enfeitadas, anúncios sedutores e abraços apressados embalados por um papel de presente. Não, não é isso que significa ser pai. Ser pai não é uma data no calendário, não é o valor de um relógio gravado com iniciais, nem um almoço requentado em restaurante lotado. Ser pai é missão — e missão que transcende paredes, telhados e sobrenomes.
O pai verdadeiro, aquele que Santo Agostinho talvez reconhecesse como portador de uma razão iluminada, sabe que cuidar e educar os filhos é um dever de casa — sagrado, sim, mas insuficiente quando pensamos no mundo que habitamos. Porque há um outro chamado, um dever mais alto, que é o de ser pai da sociedade, pai da humanidade, pai de todos aqueles que não têm quem os defenda.
Vivemos dias estranhos. Não faltam corpos nutridos, aquecidos e vestidos; falta-lhes, sim, cuidado. Falta a mão que ampara o espírito, a voz que consola o desamparo, o olhar que reconhece a dor invisível. É o abandono silencioso que mata mais do que a fome e o frio. É a ausência de assistência, de acolhimento, de presença.
Paulo Freire nos lembrou que “ninguém educa ninguém, ninguém se educa sozinho, os homens se educam em comunhão.” Assim também é a paternidade: não se restringe ao sangue, mas se expande na comunhão humana. Precisamos de pais que eduquem não apenas filhos, mas povos. Pais da pátria. Pais que se levantem contra a ganância que cega e que, no conforto de suas fortunas, esquecem que existe um mundo que chora.
Ulrich Beck nos alertou para a urgência do coletivismo — a consciência de que a nossa segurança, dignidade e futuro dependem de todos nós, e não apenas do nosso pequeno círculo. O pai cosmopolita, aquele que abraça a humanidade como sua família, é o que compreende que cada criança perdida é, de alguma forma, seu próprio filho; que cada idoso abandonado é seu pai; que cada mulher silenciada é sua irmã.
Hoje, mais do que nunca, precisamos de pais do lar e da rua; pais que rompam fronteiras e se reconheçam na missão de um mundo melhor. Pais que se levantem para que o mundo seja menos hostil e mais conciliador, que não deixem que a indiferença seja herança.
O verdadeiro Dia dos Pais será quando olharmos para o planeta e percebermos que ele se tornou uma casa, e que nós, coletivamente, assumimos a missão de cuidar, proteger e educar uns aos outros. Esse dia não precisará de propaganda — porque será vivido na prática, no silêncio dos gestos, na coragem de transformar, no amor que não conhece limites.
Ser pai é mais do que gerar vida. É sustentar a humanidade. E, quando cumprirmos essa missão, o mundo será, enfim, mais humano — e, acima de tudo, mais família.